
Drauzio Varella defende punição para quem espalha boatos contra imunizantes e cobra medidas rigorosas contra médicos que desprezam as evidências científicas
Ignorância e estupidez não são sinônimos. A primeira nasce da falta de conhecimento. Por isso, informação, estudo e diálogo podem combatê-la. A segunda aparece quando alguém recusa as evidências, não admite o próprio erro e transforma convicções pessoais em verdades absolutas.
O médico cancerologista e escritor Drauzio Varella parte dessa diferença no artigo “As vacinas e a estupidez humana”. No texto, ele não se limita a defender a eficácia dos imunizantes. Além disso, chama atenção para uma questão mais grave: a responsabilidade de quem produz e espalha informações falsas capazes de afastar crianças, adultos e idosos da vacinação.
Para o médico, quem divulga deliberadamente boatos contra vacinas deveria responder por crime contra a saúde pública. No caso de profissionais da medicina, Drauzio defende que os conselhos adotem punições rigorosas, inclusive a proibição do exercício profissional.
A posição provoca um debate necessário: até onde vai a liberdade de expressão quando uma mentira coloca outras pessoas em risco?
Um passado que muita gente não conheceu
Drauzio recorre à própria infância para recordar como era o mundo antes das grandes campanhas de vacinação. Nascido no Brás, em São Paulo, ele contraiu sarampo, coqueluche, difteria, varicela, caxumba, escarlatina e diversas infecções respiratórias.
Naquele período, a sociedade tratava essas enfermidades como “doenças da infância”, quase um pedágio inevitável para chegar à adolescência. No entanto, muitas crianças não conseguiam atravessar esse caminho.
A poliomielite provocava medo permanente nas famílias. As crianças que sobreviviam podiam perder movimentos e depender de próteses metálicas. Em casos ainda mais graves, o vírus paralisava a musculatura respiratória. Então, os hospitais colocavam os pacientes nos equipamentos conhecidos como “pulmões de aço”.
Dentro de um tubo metálico, a criança permanecia imóvel, apenas com a cabeça para fora. Enquanto isso, a máquina alterava a pressão para permitir que os pulmões continuassem funcionando. Quando faltava energia, as equipes hospitalares mantinham os aparelhos em operação manualmente.
A varíola também deixava imagens devastadoras. Os hospitais isolavam os pacientes para impedir a transmissão. A doença cobria seus corpos com lesões, marcava os rostos para sempre e levava algumas vítimas à cegueira. Nas formas mais graves, metade dos pacientes podia morrer.
Esse cenário começou a mudar graças à vacinação. Em 1980, a Organização Mundial da Saúde declarou a erradicação da varíola. Em 1989, o Brasil registrou seu último caso de poliomielite. Posteriormente, o país também eliminou o sarampo.
Entretanto, a queda das coberturas permitiu que o vírus voltasse a circular em 2019. Depois de uma nova mobilização nacional, o Brasil recuperou, em 2024, o certificado de eliminação da circulação endêmica da doença. Ainda assim, o perigo não desapareceu.
Sarampo volta a acender o alerta
Em 2026, o estado de São Paulo já registrou 26 casos de sarampo. Entre os infectados, 19 não tinham tomado a vacina ou apresentavam o esquema incompleto. Por causa disso, as autoridades ampliaram temporariamente a imunização na capital paulista, em Guarulhos e em São Bernardo do Campo.
Geralmente, o vírus chega por meio de viajantes infectados em países onde a doença continua em circulação. Quando encontra uma população bem vacinada, enfrenta dificuldades para avançar. Por outro lado, quando encontra grupos com baixa cobertura, pode iniciar novos surtos.
O sarampo apresenta alta capacidade de transmissão. Além disso, pode causar pneumonia, encefalite, sequelas neurológicas e morte. A vacina tríplice viral, disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, continua como a principal forma de prevenção.
Em agosto, novas falsidades começaram a circular nas redes sociais. Por isso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou uma checagem para explicar que os imunizantes usados no Brasil não têm caráter “experimental”.
Antes de autorizar uma vacina, a Anvisa analisa estudos sobre qualidade, segurança e eficácia. Depois que o produto chega à população, os sistemas de farmacovigilância continuam acompanhando possíveis eventos adversos.
A ciência não afirma que medicamentos estejam absolutamente livres de riscos. Pelo contrário, pesquisadores analisam constantemente os riscos e os benefícios. No caso das vacinas autorizadas, os benefícios individuais e coletivos superam amplamente a possibilidade de reações graves, que ocorrem raramente.
Dúvida não é desinformação
Nem toda pessoa que teme uma vacina integra um movimento antivacina. Existem pais inseguros, idosos confusos diante de calendários diferentes e cidadãos que recebem mensagens contraditórias nas redes sociais.
Essas pessoas precisam de escuta e orientação. Afinal, ridicularizar uma dúvida legítima pode produzir o efeito contrário e aumentar a distância entre a população e os profissionais de saúde.
O problema ganha outra dimensão quando alguém fabrica informações, distorce pesquisas ou repete alegações que os especialistas já desmentiram. Muitas vezes, essas pessoas procuram conquistar audiência, obter vantagem política ou vender tratamentos sem comprovação.
Uma dúvida pode receber esclarecimento. Da mesma forma, uma informação equivocada pode passar por correção. A desinformação deliberada, porém, imita a aparência da verdade para manipular decisões que afetam toda a comunidade.
Nesse ponto está a força da provocação de Drauzio Varella. A mentira sobre vacinas não permanece no perfil de quem a publicou. Em pouco tempo, ela alcança grupos familiares, comunidades religiosas, escolas e consultórios. Como consequência, pode convencer alguém a deixar uma criança desprotegida e abrir espaço para o retorno de uma doença controlada há décadas.
A responsabilidade dos médicos
Quando um médico divulga uma falsidade, o dano pode aumentar. O título profissional transmite autoridade. Assim, muitas pessoas recebem uma opinião sem respaldo científico como se fosse orientação especializada.
O Código de Ética Médica orienta a atuação dos profissionais, enquanto os Conselhos Regionais fiscalizam o cumprimento das normas. Qualquer pessoa pode apresentar uma denúncia acompanhada de relatos e provas. Em seguida, o conselho responsável avalia o caso e decide se deve abrir um processo ético-profissional.
Dependendo da gravidade, os conselhos podem aplicar diferentes sanções. Nos casos extremos, a punição pode chegar à cassação do direito de exercer a medicina. No entanto, todo procedimento deve respeitar o direito de defesa e analisar as circunstâncias concretas.
Isso não significa que qualquer crítica a uma vacina justifique automaticamente uma punição. A medicina também avança por meio de questionamentos, pesquisas e revisões das evidências. Portanto, as autoridades precisam diferenciar o debate científico legítimo da divulgação irresponsável de afirmações falsas e prejudiciais.
Espalhar desinformação já constitui crime?
A punição criminal defendida por Drauzio abre uma discussão jurídica que exige cuidado.
Atualmente, o Brasil não possui um enquadramento automático que transforme toda informação falsa sobre vacinas em um crime específico. A Justiça precisa analisar a conduta, a intenção, o alcance, os possíveis prejuízos e as circunstâncias de cada situação.
Além disso, qualquer medida precisa proteger o direito à crítica, à dúvida e ao debate público. Uma legislação muito ampla poderia estimular a censura e atingir manifestações legítimas.
Por outro lado, a liberdade de expressão não elimina responsabilidades. Dependendo do caso, alguém pode cometer fraude, oferecer tratamento irregular, exercer ilegalmente uma profissão ou colocar terceiros em perigo. Portanto, a legislação já permite responsabilizar determinadas condutas, ainda que não exista um crime genérico de “mentira sobre vacinas”.
O desafio consiste em alcançar quem explora deliberadamente a desinformação sem criminalizar o cidadão que apenas procura respostas.
Vacinação é uma responsabilidade coletiva
Muitas pessoas apresentam a decisão de não tomar uma vacina como uma escolha exclusivamente individual. Entretanto, as doenças transmissíveis não respeitam essa fronteira.
Uma pessoa desprotegida pode integrar uma cadeia de transmissão. Como resultado, o vírus pode alcançar bebês que ainda não chegaram à idade de receber determinadas doses, pacientes em tratamento contra o câncer, pessoas imunossuprimidas e idosos.
Por isso, a vacinação protege quem recebe a dose e também quem vive ao redor. Trata-se de um compromisso coletivo construído ao longo de gerações. Graças a ele, o mundo evitou milhões de mortes e livrou famílias de enfermidades que um dia lotaram hospitais.
A memória dessas doenças desapareceu justamente porque as vacinas funcionaram. Desse sucesso nasceu um paradoxo: quanto menos vemos crianças paralisadas pela poliomielite, pacientes marcados pela varíola ou enfermarias tomadas pelo sarampo, mais fácil se torna imaginar que o risco nunca existiu.
A ignorância pode ser enfrentada com conhecimento. Da mesma forma, a insegurança merece acolhimento e a dúvida exige respostas claras. No entanto, quem transforma deliberadamente a mentira em instrumento de influência precisa responder por seus atos.
Quando afasta pessoas da vacinação, a desinformação deixa de representar apenas uma opinião equivocada. Ela se transforma em ameaça concreta à saúde de toda a sociedade.