Em Florianópolis, uma imagem chamou atenção e acabou sintetizando o momento político de Santa Catarina: velhas raposas e inimigos históricos dividindo a mesma mesa, ensaiando uma aliança que tenta se vender como alternativa ao “sistema”.
O problema começa justamente aí.
O encontro reuniu figuras que passaram décadas se enfrentando — e que agora aparecem lado a lado como se o passado não existisse. Ver Esperidião Amin e Eduardo Moreira juntos não representa renovação. Representa adaptação.
A cena revela menos ruptura e mais sobrevivência política.
E a contradição não é antiga — ela é recente.
Até poucas meses atrás, João Rodrigues afirmava que não queria o MDB em sua coligação justamente por serem aliados do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
A resposta veio rápida.
Carlos Chiodini rebateu essas críticas na época lembrando que o próprio PSD também integra a base do governo federal — e que, diante disso, o “choro” era livre.
A partir dali, o discurso começou a perder consistência.
Nos bastidores, a própria construção da candidatura dita “antissistema” escancara ainda mais o paradoxo. Foi necessário acionar Gilberto Kassab para organizar o projeto — um dos maiores símbolos da articulação política tradicional no país.
Ou seja: o “antissistema” precisou do sistema para nascer.
Em Santa Catarina, o entorno reforça essa incoerência. Estão na mesa nomes como Raimundo Colombo, Pinho Moreira e o próprio Chiodini — todos protagonistas de ciclos anteriores da política catarinense e inseridos exatamente nas estruturas que agora são alvo do discurso.
A tal “coligação do sistema”, portanto, ganha um contorno quase irônico: ela não está apenas do outro lado — ela está sentada à mesa, protagonizando o movimento.
E o problema vai além da foto.
Nas bases partidárias, a divisão é evidente. Tanto no Progressistas quanto no MDB, prefeitos, deputados e lideranças relevantes já estão alinhados ao projeto liderado por Jorginho Mello.
No Progressistas, a fidelidade ao governo estadual é visível. No MDB, o cenário é de fragmentação e falta de comando.
A federação entre União Brasil e Progressistas adiciona ainda mais instabilidade, reduzindo o controle das lideranças e dificultando qualquer tentativa de unidade real.
No fim, o contraste é inevitável.
O discurso fala em ruptura. A imagem entrega velhas alianças.
A narrativa promete algo novo. A prática revela o de sempre.
Até as convenções, muita coisa pode mudar. Mas, por enquanto, a fotografia é clara:
o “antissistema” em Santa Catarina parece apenas o sistema tentando se reorganizar — com os mesmos personagens de sempre.
Porque, no fim das contas, como diria o Capitão Nascimento em Tropa de Elite:
“O sistema é foda, parceiro.”